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O Cânon

20 de setembro de 2026

[Esclarecimento] Há Certas Divergências na Bíblia

A ideia da inerrância da Bíblia, não deixa margem para nenhuma espécie de erro nela. Como a descreve Wayne Grudem, teólogo americano, a inerrância da Escritura significa que ela “não afirma nada que é contrário a fato”. Grudem rejeita a posição diferente, que admite divergências na Bíblia em detalhes menores, científicos e históricos, sem comprometer sua essência teológica. Para contestar essa opinião, Grudem apela para versos que falam que toda a Escritura é inspirada por Deus, pura, perfeita e proveitosa, de modo que nenhum detalhe escapa à inspiração divina. Ele diz: “Tudo declarado na Escritura está lá porque Deus pretendeu que estivesse lá. Deus não diz nada involuntariamente.” A quem sustenta que há divergências pequenas e de importância secundaria, Grudem pergunta: “Em qual verso ou versos específicos estes ‘erros’ ocorrem?” Mas há algo de inocência nesse pensamento dele.

Vejamos as observações sobre o assunto feitas por um especialista em Novo Testamento, Izak du Plessis, que ensinou na Universidade da África do Sul. Em sua obra Nazaré ou Egito: Quem estava certo? Uma perspectiva histórica sobre o Novo Testamento, ele diz: “Quando os evangelhos foram escritos, recordações históricas foram incorporadas, mas o interesse é menos em detalhes factuais que e seu significado para se compreender o Senhor ressurgido do presente.”

“Nazaré ou Egito?” Du Plessis alegou que a reprodução dos eventos que se seguiram ao nascimento de Jesus por Mateus e Lucas “são tão surpreendentemente diferentes. Visto de uma perspectiva histórica, o problema parece insolúvel”. Mateus conta que José e Maria, “ sendo por divina revelação avisados em sonhos para que não voltassem para junto de Herodes, partiram para a sua terra por outro caminho” (Mateus 2:12). Um anjo disse a José em sonhos: “Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e demora-te lá até que eu te diga, porque Herodes há de procurar o menino para o matar. E, levantando-se ele, tomou o menino e sua mãe, de noite, e foi para o Egito. E esteve lá até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Do Egito chamei o meu Filho” (vv. 13–15).

Então o casal voltou para Nazaré.

Em Lucas, nada lemos sobre uma fuga para o Egito e uma permanência lá, como também nada se lê sobre a matança de crianças. Ao contrário, a família de José foi abertamente ao templo de Jerusalém, palácio de residência de Herodes. Então eles foram diretamente para a sua casa em Nazaré.

Não se trata apenas de uma narrativa mais enxuta de Lucas, que teria omitido a matança de crianças e a fuga de José para o Egito, mas de uma diferença mais profunda, visto que Lucas mostra a família de José à vontade em Jerusalém. Du Plessis comenta: “Parece muito aparente que a história de Mateus não descreve um evento histórico.” Ele argumenta que Herodes pode muito facilmente ser comparado simbolicamente com Faraó, que promovera a matança de meninos no Egito (Êx. 1:15–22), pelo que o bebê Moisés fora escondido pela família. “É possível que a história seja uma reconstrução da história de Moisés no Velho Testamento. Faraó é o exemplo tipológico de Herodes e, Moisés, aquele de Jesus. É possível que Mateus (ou a tradução que ele usou) desejou apresentar Jesus como o verdadeiro Israel e o novo Moisés.”

É clara a existência de algumas divergências históricas, cronológicas, geográficas e fraseológicas nas Escrituras. No final do seu livro, du Plessis diz: “A histórica inexatidão que nós temos apontado neste livro deve nos fazer entender que a autoridade da Bíblia não está em uma espécie de infalibilidade e acurácia histórica.”

Segundo os discernimentos da Crítica da Redação (Redaktionsgeschichte), desenvolvida especialmente pelos eruditos alemães Gunther Bornkamm, Willi Marxsen e Hans Conzelmann, os autores dos evangelhos arrumaram e editaram os dados que tinham, segundo as suas intenções teológicas, para atender às necessidades dos respectivos públicos para os quais escreveram originalmente. Isso responderia por diferenças temáticas, históricas, cronológicas, de linguagem entre os evangelhos. Escrevendo a cristãos convertidos do Judaísmo, Mateus edita o seu texto de modo diferente de Marcos, que escreveu a gentios convertidos à fé cristã. Por exemplo, no evangelho de Mateus, judeus se dirigiam a Jesus chamando-o de “Mestre”, em episódios que não terminavam bem, enquanto gentios o chamavam de “Senhor”, em episódios que terminavam bem. Mateus está a ensinar à sua comunidade que Jesus não era um simples mestre rabínico, mas o Senhor. Como é típico de Mateus repreender a incredulidade dos judeus, exaltando a fé de gentios, estes aparecem chamando Jesus de Senhor. Ainda, em virtude desse recurso, Mateus e Lucas, por exemplo, divergem sobre o tratamento usado para Jesus em um mesmo episódio: um homem clamou a Jesus para salvar o seu filho possesso e, segundo Mateus, ele chamou Jesus de “Senhor” (17:15), kurios, enquanto, de acordo com Lucas, de “Mestre” (9:38), didaskalos. Escrevendo suas obras algumas décadas depois dos fatos que narram, os autores dificilmente saberiam os tratamentos exatos usados pelas pessoas que abordavam Jesus. Assim, eles usaram os tratamentos segundo o que desejavam comunicar. Isso entendido, não é preciso que haja perplexidade com essas “divergências na Bíblia”, que não afetam a sua mensagem teológica. “A palavra inscrita de Deus é perfeitamente digna de confiança e sem erro no sentido de seu propósito divinamente pretendido ou, poderíamos dizer, vista do ponto de vista de Deus” (Gerhard Maier).

20 de setembro de 2026

[Dúvida] Onde Está a Carta aos Laodicenses, Mencionada por Paulo na Carta aos Colossenses?

O apóstolo Paulo disse em sua carta aos Colossenses: “E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses; e a que veio de Laodiceia, lede-a vós também (4:16). Que carta é essa aos laodicenses, que não aparece no Novo Testamento? Poderia ter se perdido um documento canônico, apostólico, “inspirado”? Vários estudiosos consideram com naturalidade essa hipótese. Bruce M. Metzger escreveu em Cânon do Novo Testamento: Sua Origem, Desenvolvimento e Significado: “Indubitavelmente, então, muitas cartas privadas escritas por autores representados no Novo Testamento se perderam.” Curiosamente, existe uma Carta aos Laodicenses, mas ela não é considerada autêntica.

Uma outra possível explicação é que a carta ausente aos laodicenses seja a carta aos Efésios que temos em nosso Testamento. G. G. Findlay argumentou que nada pode se afirmado com certeza, mas “várias considerações apontam para a probabilidade de que esta carta ausente não é outra que nossa (assim-chamada) Epístola aos Efésios”.

Algumas razões para se cogitar que a carta aos Efésios não teria sido escrita para essa igreja:

a) Ambas as cartas foram enviadas ao mesmo tempo, pelo mesmo mensageiro, Tíquico (Efésios 6:21; Colossenses 4:7).

b) A relação entre as duas cartas é muito íntima, como se fossem cartas gêmeas. Cada uma serve como comentário para a outra.

c) A expressão “em Éfeso” (ἐν Ἐφέσῳ) em Efésios 1:1 são de autenticidade duvidosa. E há muita coisa na carta que favorece a hipótese de que ela não foi escrita aos efésios particularmente, sendo antes uma carta circular para um número de igrejas na Ásia Menor. 

d) Paulo trabalhou em Éfeso, mas a carta não contém as costumeiras saudações pessoais que há no fim de outras cartas suas. Vejamos: “Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo. A graça seja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo em sinceridade. Amém!” (Ef. 6:23s.).