No verso 19, encontramos o verbo grego poreuthentes (πορευθέντες) comumente traduzido como ”ide”. Mas poreuthentes não é um imperativo. A sua tradução precisa é ”tendo ido” ou, aceitavelmente, ”indo”. Uma vez indo a todos os lugares, devemos fazer lá o que o Senhor mandou. E o que ele mandou? mathēteusate (μαθητεύσατε), ”discipulai (todas as nações)”. Esse verbo tem sido traduzido por ”fazei discípulos”; por causa da inexistência do verbo ”discipular” nos dicionários de língua portuguesa, inglesa etc. Outra razão é para que o pronome oblíquo em ”batizando-os”, que é realmente masculino, concorde com “fazei discípulos”, uma vez que ficaria estranho com ”discipulai as nações”. A inserção da palavra ”discípulos” concorda com ”-os” em ”batizando-os”. De fato, não se batizam nações e, sim, discípulos. Ainda assim, é mais razoável traduzir o texto como ele se apresenta, sem a palavra ”discípulos”.

Donald McGavran usou um recurso interessante, nesse caso, no livro As Pontes de Deus, que é o verbo ”discipulai” como um termo técnico, justificando, assim, o seu uso: ”A palavra grega é, realmente, ‘discipulai’; assim, ao longo deste livro nós usaremos o verbo ‘discipular’ como um termo técnico.”

Há traduções que optam por traduzir mathēteusate como ”ensinai (todas as nações)”, embora no verso 20, ”[…] ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado […]”, ”ensinando” venha de outro verbo, didaskontes (διδάσκοντες).

Contudo, o tradutor pode preferir usar ”discipulai”, sem sequer cogitar que o usa como um termo técnico, não natural. Afinal, é o uso que faz o dicionário.

Aliás, o verbo discipular é comumente (forçadamente) usado em programas de discipulado.

Agora, como explicar o uso de ”discipulai as nações” com o pronome oblíquo masculino em ”batizando-os”, autous (αὐτούς), como Mateus registra? Um erro? Não, um fenômeno linguístico chamado, em latim, constructio ad sensum, ou seja, ”construção pelo sentido”. A. T. Robertson observou: ”Algumas vezes, não há nenhuma referência imediata no contexto para o pronome. A narrativa é comprimida e nós temos que prover o sentido.” No caso de Mateus 28, o pronome autous (αὐτούς) representa os indivíduos das nações.

Assim sendo, não seria absurdo, para evitar, em nossa língua, o incômodo do pronome oblíquo divergente, que a tradução fosse ”Indo, discipulai todas as nações, batizando os seus indivíduos […]”. Afinal, pronome representa nome.