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Glauner da Silva Pereira

20 de setembro de 2026

[Esclarecimento] Há Certas Divergências na Bíblia

A ideia da inerrância da Bíblia, não deixa margem para nenhuma espécie de erro nela. Como a descreve Wayne Grudem, teólogo americano, a inerrância da Escritura significa que ela “não afirma nada que é contrário a fato”. Grudem rejeita a posição diferente, que admite divergências na Bíblia em detalhes menores, científicos e históricos, sem comprometer sua essência teológica. Para contestar essa opinião, Grudem apela para versos que falam que toda a Escritura é inspirada por Deus, pura, perfeita e proveitosa, de modo que nenhum detalhe escapa à inspiração divina. Ele diz: “Tudo declarado na Escritura está lá porque Deus pretendeu que estivesse lá. Deus não diz nada involuntariamente.” A quem sustenta que há divergências pequenas e de importância secundaria, Grudem pergunta: “Em qual verso ou versos específicos estes ‘erros’ ocorrem?” Mas há algo de inocência nesse pensamento dele.

Vejamos as observações sobre o assunto feitas por um especialista em Novo Testamento, Izak du Plessis, que ensinou na Universidade da África do Sul. Em sua obra Nazaré ou Egito: Quem estava certo? Uma perspectiva histórica sobre o Novo Testamento, ele diz: “Quando os evangelhos foram escritos, recordações históricas foram incorporadas, mas o interesse é menos em detalhes factuais que e seu significado para se compreender o Senhor ressurgido do presente.”

“Nazaré ou Egito?” Du Plessis alegou que a reprodução dos eventos que se seguiram ao nascimento de Jesus por Mateus e Lucas “são tão surpreendentemente diferentes. Visto de uma perspectiva histórica, o problema parece insolúvel”. Mateus conta que José e Maria, “ sendo por divina revelação avisados em sonhos para que não voltassem para junto de Herodes, partiram para a sua terra por outro caminho” (Mateus 2:12). Um anjo disse a José em sonhos: “Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e demora-te lá até que eu te diga, porque Herodes há de procurar o menino para o matar. E, levantando-se ele, tomou o menino e sua mãe, de noite, e foi para o Egito. E esteve lá até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Do Egito chamei o meu Filho” (vv. 13–15).

Então o casal voltou para Nazaré.

Em Lucas, nada lemos sobre uma fuga para o Egito e uma permanência lá, como também nada se lê sobre a matança de crianças. Ao contrário, a família de José foi abertamente ao templo de Jerusalém, palácio de residência de Herodes. Então eles foram diretamente para a sua casa em Nazaré.

Não se trata apenas de uma narrativa mais enxuta de Lucas, que teria omitido a matança de crianças e a fuga de José para o Egito, mas de uma diferença mais profunda, visto que Lucas mostra a família de José à vontade em Jerusalém. Du Plessis comenta: “Parece muito aparente que a história de Mateus não descreve um evento histórico.” Ele argumenta que Herodes pode muito facilmente ser comparado simbolicamente com Faraó, que promovera a matança de meninos no Egito (Êx. 1:15–22), pelo que o bebê Moisés fora escondido pela família. “É possível que a história seja uma reconstrução da história de Moisés no Velho Testamento. Faraó é o exemplo tipológico de Herodes e, Moisés, aquele de Jesus. É possível que Mateus (ou a tradução que ele usou) desejou apresentar Jesus como o verdadeiro Israel e o novo Moisés.”

É clara a existência de algumas divergências históricas, cronológicas, geográficas e fraseológicas nas Escrituras. No final do seu livro, du Plessis diz: “A histórica inexatidão que nós temos apontado neste livro deve nos fazer entender que a autoridade da Bíblia não está em uma espécie de infalibilidade e acurácia histórica.”

Segundo os discernimentos da Crítica da Redação (Redaktionsgeschichte), desenvolvida especialmente pelos eruditos alemães Gunther Bornkamm, Willi Marxsen e Hans Conzelmann, os autores dos evangelhos arrumaram e editaram os dados que tinham, segundo as suas intenções teológicas, para atender às necessidades dos respectivos públicos para os quais escreveram originalmente. Isso responderia por diferenças temáticas, históricas, cronológicas, de linguagem entre os evangelhos. Escrevendo a cristãos convertidos do Judaísmo, Mateus edita o seu texto de modo diferente de Marcos, que escreveu a gentios convertidos à fé cristã. Por exemplo, no evangelho de Mateus, judeus se dirigiam a Jesus chamando-o de “Mestre”, em episódios que não terminavam bem, enquanto gentios o chamavam de “Senhor”, em episódios que terminavam bem. Mateus está a ensinar à sua comunidade que Jesus não era um simples mestre rabínico, mas o Senhor. Como é típico de Mateus repreender a incredulidade dos judeus, exaltando a fé de gentios, estes aparecem chamando Jesus de Senhor. Ainda, em virtude desse recurso, Mateus e Lucas, por exemplo, divergem sobre o tratamento usado para Jesus em um mesmo episódio: um homem clamou a Jesus para salvar o seu filho possesso e, segundo Mateus, ele chamou Jesus de “Senhor” (17:15), kurios, enquanto, de acordo com Lucas, de “Mestre” (9:38), didaskalos. Escrevendo suas obras algumas décadas depois dos fatos que narram, os autores dificilmente saberiam os tratamentos exatos usados pelas pessoas que abordavam Jesus. Assim, eles usaram os tratamentos segundo o que desejavam comunicar. Isso entendido, não é preciso que haja perplexidade com essas “divergências na Bíblia”, que não afetam a sua mensagem teológica. “A palavra inscrita de Deus é perfeitamente digna de confiança e sem erro no sentido de seu propósito divinamente pretendido ou, poderíamos dizer, vista do ponto de vista de Deus” (Gerhard Maier).

20 de setembro de 2026

[Esclarecimento] A Tradução de Mateus 28:19

No verso 19, encontramos o verbo grego poreuthentes (πορευθέντες) comumente traduzido como ”ide”. Mas poreuthentes não é um imperativo. A sua tradução precisa é ”tendo ido” ou, aceitavelmente, ”indo”. Uma vez indo a todos os lugares, devemos fazer lá o que o Senhor mandou. E o que ele mandou? mathēteusate (μαθητεύσατε), ”discipulai (todas as nações)”. Esse verbo tem sido traduzido por ”fazei discípulos”; por causa da inexistência do verbo ”discipular” nos dicionários de língua portuguesa, inglesa etc. Outra razão é para que o pronome oblíquo em ”batizando-os”, que é realmente masculino, concorde com “fazei discípulos”, uma vez que ficaria estranho com ”discipulai as nações”. A inserção da palavra ”discípulos” concorda com ”-os” em ”batizando-os”. De fato, não se batizam nações e, sim, discípulos. Ainda assim, é mais razoável traduzir o texto como ele se apresenta, sem a palavra ”discípulos”.

Donald McGavran usou um recurso interessante, nesse caso, no livro As Pontes de Deus, que é o verbo ”discipulai” como um termo técnico, justificando, assim, o seu uso: ”A palavra grega é, realmente, ‘discipulai’; assim, ao longo deste livro nós usaremos o verbo ‘discipular’ como um termo técnico.”

Há traduções que optam por traduzir mathēteusate como ”ensinai (todas as nações)”, embora no verso 20, ”[…] ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado […]”, ”ensinando” venha de outro verbo, didaskontes (διδάσκοντες).

Contudo, o tradutor pode preferir usar ”discipulai”, sem sequer cogitar que o usa como um termo técnico, não natural. Afinal, é o uso que faz o dicionário.

Aliás, o verbo discipular é comumente (forçadamente) usado em programas de discipulado.

Agora, como explicar o uso de ”discipulai as nações” com o pronome oblíquo masculino em ”batizando-os”, autous (αὐτούς), como Mateus registra? Um erro? Não, um fenômeno linguístico chamado, em latim, constructio ad sensum, ou seja, ”construção pelo sentido”. A. T. Robertson observou: ”Algumas vezes, não há nenhuma referência imediata no contexto para o pronome. A narrativa é comprimida e nós temos que prover o sentido.” No caso de Mateus 28, o pronome autous (αὐτούς) representa os indivíduos das nações.

Assim sendo, não seria absurdo, para evitar, em nossa língua, o incômodo do pronome oblíquo divergente, que a tradução fosse ”Indo, discipulai todas as nações, batizando os seus indivíduos […]”. Afinal, pronome representa nome.

20 de setembro de 2026

[Para Instrução da Igreja] Motivos Missionários para os Crentes

Quais eram os motivos missionários dos cristãos primitivos, que devem também ser os nossos?

1. Gratidão a Deus pela própria salvação – Os cristãos primitivos se dedicavam à evangelização ”por causa da experiência extraordinária do amor de Deus que Jesus Cristo lhes proporcionara” (Michael Green).

2. Obediência à ordem de Cristo – “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc. 16:15).

3. Privilégio de participar da obra do Messias – Pregar o evangelho é uma graça dada por Deus, como afirmou o apóstolo Paulo sobre si mesmo: “A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo” (Ef. 3:8).

4. Senso especial de propósito e serviço na vida (“Para que eu existo?”)

5. Consciência do sacerdócio de todos os crentes – “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pe. 2:9).

6. Compaixão e senso de responsabilidade pelos perdidos – “E, vendo a multidão, teve [Jesus] grande compaixão deles, porque andavam desgarrados e errantes como ovelhas que não têm pastor” (Mt. 9:36).

7. Coragem – Eles não tinham vergonha do evangelho (conforme o apóstolo Paulo declarou de si mesmo em Romanos 1:16), nem medo de pregá-lo.

A declaração de Pedro e João reflete o sentimento dos cristãos em geral: “Porque não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido” (At. 4:20).

20 de setembro de 2026

[Esclarecimento] Não Foi para Morrer Que Nós Fomos Criados

Morrer é natural? As pessoas geralmente respondem que sim. E por que elas dizem que morrer é natural? Porque todos morrem.

Então perguntamos: nós encaramos a morte com naturalidade? Nós a vemos com familiaridade? Aqui, as pessoas prontamente dizem que não — de jeito nenhum. Nós encaramos a morte com pavor. Temos aversão a ela — uma profunda aversão natural.

Devemos, então, perguntar: por que não encaramos a morte com naturalidade, se ela é natural? Como é possível que algo inerente à nossa natureza nos encha de pavor? Se a morte é natural, não deveria ela ser vista com o mesmo sentimento de encantamento e prazer que o nascimento, o crescimento e o amor? A verdade é que se a morte fosse realmente natural, nós a encararíamos com simpatia e até a celebraríamos.

Em suma, por que a morte nos causa desconforto existencial, se ela é biologicamente natural?

O poeta português Fernando Pessoa perguntou: “Quem me dispôs para o que não pudesse?” O que nos faz ansiar pelo impossível? Temos desejos equivocados? De onde vêm esses desejos?

O rei Salomão disse que Deus colocou a eternidade no coração de suas criaturas (Eclesiastes 3:11). Fomos criados com desejo de eternidade justamente porque Deus nos criou para a eternidade, e não para morrer.

Mas por que morremos, então? Porque fomos criados para a imortalidade, mas ela não se concretizou; as criaturas não creram em Deus, mas o desobedeceram. Isso é chamado de pecado. O apóstolo Paulo escreveu: “Pois o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23).

Assim, nosso problema existencial é que, por um lado, ansiamos pela imortalidade, enquanto, por outro, estamos sujeitos à morte.

Deus nos criou para um relacionamento eterno de amor com Ele. Ele proveria tudo para a felicidade de suas criaturas, enquanto elas o amariam e glorificariam com gratidão e obediência. Isso se expressa na fórmula bíblica “Eu serei o Deus deles e eles serão o Meu povo”, que aparece frequentemente em toda a Bíblia. Um exemplo é: “Andarei entre vocês e serei o seu Deus, e vocês serão o meu povo” (Levítico 26:12).

Mas para que Deus fosse amado autenticamente, não por robôs que o amassem automaticamente, as criaturas precisariam ter liberdade moral; pois só há virtude onde há liberdade. Então Deus criou seres bons, mas que precisariam fazer sua própria escolha entre permanecer no bem ou migrar para o mal.

Enquanto o casal obedecesse a Deus, abstendo-se de comer o fruto proibido, teria tempo para se aproximar da árvore da vida, comendo de cujo fruto se confirmaria no bem em que foi criado e se tornaria imortal. No entanto, tragicamente, tentado pelo diabo, o casal escolheu considerar a verdade de Deus mentira e pecou, ​​introduzindo assim o sofrimento e a morte na existência humana. Dessa forma, por meio da desobediência ao Criador, os seres humanos — originalmente criados com uma vocação para a imortalidade — se tornaram mortais. Criados para a eternidade, acabamos na morte. A morte não pertence à nossa natureza original; ela foi um acidente no estágio inicial da existência humana.

As pessoas perguntam por que Deus permite que toda sorte de males danifique ou destrua vidas. Ora, nós estamos falando de um mundo amaldiçoado pelo pecado. Como escreveu o apóstolo Paulo, “toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora” (Romanos 8:22). O pecado danificou todas as esferas do universo. Todos os sofrimentos do mundo são fagulhas da bomba do pecado que explodiu no Éden e que alcançarão todas as criaturas de todos os séculos. Já não sabemos que o salário do pecado é a morte?

Mas Deus, traído pelas criaturas originais, “prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5:8). Ele “amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). O que é verdadeiramente natural e legítimo em nós, que veio de nossa origem, não é a morte, mas o anseio humano pela eternidade. E é a isso que está em nós que o Evangelho de Cristo apela. Deus nos oferece a realização de nosso maior desejo. A e-ter-ni-da-de! E quanto isso custa? Crer em Jesus. É muito?

A morte está em nosso caminho. Contudo, no caminho dos que creem em Jesus está também a ressurreição prometida para o dia de sua segunda vinda. Viveremos uma eternidade feliz na companhia de Deus e de Jesus. “E Deus limpará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Apocalipse 21:4). A morte é tão inatural que o apóstolo Paulo escreveu: “O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Coríntios 15:26). Assim está escrito e assim será. “O que vencer não receberá o dano da segunda morte” (Apocalipse 2:11), mas, uma vez ressuscitado, permanecerá feliz para sempre. Quem crer, verá e viverá. Já quem não crer, somente verá… de longe; porque o seu destino será a segunda morte. Desse modo, a morte que conhecemos não é tudo. Haverá a ressurreição dos que creem em Jesus para a eternidade e, dos que não creem, para a morte definitiva.

“Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Pois com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” (Romanos 10:9–10). A salvação eterna está a um passo de distância: o passo da fé em Jesus como Senhor e Salvador.

Vamos resumir tudo com cinco proposições do autor britânico Alister E. McGrath:

(a) “Nós fomos criados para a vida eterna – e isso foi frustrado pelo pecado, que nos desvia de Deus e cria um senso de vazio ao fazer isso.”

(b) A angústia existencial “deve sua origem ao profundamente enraizado e pervasivo medo humano da morte”.

(c) A solução é que devemos correlacionar o evangelho com esse senso de profundo incômodo, enchendo-o com a presença do Deus vivo.

(d) “A ansiedade em relação à morte revela-se a porta de entrada para a vida eterna.”

(e) Assim, o senso de medo que nos assalta pode ser considerado como “Deus batendo gentilmente na porta de nossa vida”.

20 de setembro de 2026

[Dúvida] Onde Está a Carta aos Laodicenses, Mencionada por Paulo na Carta aos Colossenses?

O apóstolo Paulo disse em sua carta aos Colossenses: “E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses; e a que veio de Laodiceia, lede-a vós também (4:16). Que carta é essa aos laodicenses, que não aparece no Novo Testamento? Poderia ter se perdido um documento canônico, apostólico, “inspirado”? Vários estudiosos consideram com naturalidade essa hipótese. Bruce M. Metzger escreveu em Cânon do Novo Testamento: Sua Origem, Desenvolvimento e Significado: “Indubitavelmente, então, muitas cartas privadas escritas por autores representados no Novo Testamento se perderam.” Curiosamente, existe uma Carta aos Laodicenses, mas ela não é considerada autêntica.

Uma outra possível explicação é que a carta ausente aos laodicenses seja a carta aos Efésios que temos em nosso Testamento. G. G. Findlay argumentou que nada pode se afirmado com certeza, mas “várias considerações apontam para a probabilidade de que esta carta ausente não é outra que nossa (assim-chamada) Epístola aos Efésios”.

Algumas razões para se cogitar que a carta aos Efésios não teria sido escrita para essa igreja:

a) Ambas as cartas foram enviadas ao mesmo tempo, pelo mesmo mensageiro, Tíquico (Efésios 6:21; Colossenses 4:7).

b) A relação entre as duas cartas é muito íntima, como se fossem cartas gêmeas. Cada uma serve como comentário para a outra.

c) A expressão “em Éfeso” (ἐν Ἐφέσῳ) em Efésios 1:1 são de autenticidade duvidosa. E há muita coisa na carta que favorece a hipótese de que ela não foi escrita aos efésios particularmente, sendo antes uma carta circular para um número de igrejas na Ásia Menor. 

d) Paulo trabalhou em Éfeso, mas a carta não contém as costumeiras saudações pessoais que há no fim de outras cartas suas. Vejamos: “Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo. A graça seja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo em sinceridade. Amém!” (Ef. 6:23s.).

20 de setembro de 2026

[Assunto de Grave Importância] Missões, a Parte Perdida da Adoração Total Que a Igreja Deve a Deus

As igrejas primitivas adoravam a Deus em suas reuniões, mas isso não era tudo que elas entendiam por adoração. Era uma parte dela. A outra parte era a liturgia do testemunho, tanto no sentido ético, quanto missionário.

Infelizmente, porém, a igreja cristã adotou, sob o patrocínio do imperador Constantino, réplicas em miniatura do culto ritualista da velha dispensação. O Cristianismo “recuou ao estágio pré-cristão”, como expressou Walter Rauschenbusch. A velha ordem, com sua divisão de tempo, espaço, pessoas e coisas entre sagradas e seculares, que Jesus tinha abolido, foi reintroduzida em certa medida. A doutrina cristã da adoração foi reduzida, restringindo-se à adoração coletiva. O domingo se tornou o ”sábado cristão”, dia santo a ser guardado. O antigo vocabulário cúltico que, no Novo Testamento, foi direcionado para a ética e a missão da igreja, voltou a ser usado para a adoração coletiva. As palavras do grupo ”liturgia” (λειτουργία, λειτουργός, λειτουργέω), por exemplo, associadas na Septuaginta com o culto sacerdotal no templo e, no Novo Testamento, com o serviço do evangelho, passaram a designar apenas a adoração coletiva cristã.

David Peterson asseverou que os cristãos hoje ”obscurecem a amplitude e profundidade do ensino da Bíblia sobre este assunto quando eles persistem em usar a palavra ‘adoração’ no modo usual, limitado, aplicando-o principalmente ao que acontece nos cultos dominicais”.

A indiferença missionária foi uma consequência natural do desastre do estreitamento do conceito de adoração, que exclui o legítimo componente da missão. A evangelização (externa) se tornou a parte perdida da adoração que a igreja deve a Deus.

Na segunda metade do século XX, muitos estudos mostraram que a doutrina da adoração no Novo Testamento contém uma grande parte que não consta da doutrina da adoração posterior à era apostólica. Estudos têm mostrado que termos cúlticos do Velho Testamento são evitados em referência à adoração da igreja reunida (adoração coletiva). Franklin W. Young comentou, em 1963: ”A erudição recente tem repetidamente destacado o fato de que o Novo Testamento se abstém de usar terminologia cúltica tradicional (e.g., latreia, leitourgia, diakonia etc.) para se referir à sua adoração cúltica.” Além disso, a mesma linguagem cúltica é consistentemente usada em alusão ao comportamento ético geral dos crentes e, mais particularmente, à evangelização.

Paul Waitmann Hoon escreveu: ”A vida do cristão é, em sua totalidade, uma vida litúrgica, e, liturgicamente, se pode concebê-la tanto missionária quanto cúltica.”

Romanos 1:9 diz: ”Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, me é testemunha de como incessantemente faço menção de vós.” Aqui, o serviço do evangelho é qualificado como adoração (latreia, λατρεία).

Em Romanos 15:15–16, Paulo diz: “Mas, irmãos, em parte vos escrevi mais ousadamente, como para vos trazer outra vez isto à memória, pela graça que por Deus me foi dada, que eu seja ministro de Jesus Cristo entre os gentios, ministrando o evangelho de Deus, para que seja agradável a oferta dos gentios, santificada pelo Espírito Santo.”
Em grego, a palavra ”ministro” é leitourgos (λειτουργός), cuja função é ”ministrar o evangelho”. O verbo traduzido como ”ministrando” é hierourgounta (ἱερουργοῦντα). O verbo hierourgeō (ἱερουργέω) significa ”ministrar no serviço sacerdotal”, ”administrar o sagrado serviço”. Assim, Albert-Marie Denis diz que o serviço de evangelizar do apóstolo é aqui ”figurado como o ato sagrado de ’função cultual’”.

Ferdinand Hahn também se expressa sobre esse verso em Adoração da Igreja Primitiva: ”Aqui, os vários termos da linguagem sacrificial e cúltica são removidos de sua esfera original de significado e aplicados ao serviço missionário.”
Paulo afirma em 2 Coríntios 2:15 que nós somos para Deus o ”aroma” de Cristo no mundo. No verso anterior, Paulo fala do conhecimento de Cristo como ”fragrância”. Gênesis 8:21; Êxodo 30:34-38; Levítico 1:9, 13, 17; 2:2, 9, 12; e Ezequiel 20:28, 41, por exemplo, falam de aromas como elementos cúlticos. Deus recebe como adoração nosso ato de espalhar o aroma do conhecimento de Cristo.

Em Filipenses 2:17, Paulo usa três termos cúlticos ao falar de si: ”E, ainda que seja oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da vossa fé, folgo e me regozijo com todos vós”. São eles: ”oferecido por libação [spendomai, σπένδομαι] sobre o sacrifício [thysia, θυσίᾳ]”, usado figurativamente, se refere ao sangue que é espargido sobre alguém sacrificado” e (b) ”serviço [leitourgia, λειτουργίᾳ] da vossa fé”. Leitourgia é o serviço cultual da pregação da fé. Heinrich Schlier comentou em seu estudo A ”Liturgia” do Evangelho Apostólico, que Paulo usa aí ”λειτουργία pronunciada no sentido de execução cúltico-sacerdotal, ao lado de θυσία [sacrifício]”, em referência ao seu serviço missionário. Schlier diz ainda que ”Paulo interpretava a sua missão como ‘liturgia’ sacerdotal”.

A primeira publicação a explorar o significado cúltico da missão de um modo sistemático e em relativa profundidade foi Adoração e Missão, de John Gordon Davies, que apareceu em 1966 e é ”primariamente um estudo doutrinal do significado da adoração em termos da missão”, como ele mesmo definiu. Ele escreveu que, “no passado, o entendimento teológico da adoração tem sido desenvolvido principalmente em uma direção, isto é, voltada para dentro. Por exemplo, ela tem sido interpretada como aquilo que edifica o Corpo de Cristo. Enquanto eu não tenho nenhum desejo de negar a verdade disto e declarações similares, eu penso que é chegado o tempo quando nós devemos adotar uma outra abordagem, que é complementar, antes que uma alternativa. Nós devemos procurar entender a adoração voltada para fora em termos da missão.”


Em outro estudo, de 1973, O Deus de Todos os Dias: Encontrando o Santo no Mundo e na Adoração, Davies dedicou um capítulo à relação entre a adoração e a missão, no qual ele interpreta a adoração centrifugamente e examina ”o que a adoração significa de uma perspectiva centrífuga ou missionária”. Entender a adoração centrifugamente significa que ”qualquer lugar é o lugar de encontro com Deus no contexto da vida cotidiana e, na medida em que qualquer templo continua a existir, isto não é um edifício de pedra, mas uma comunidade vivendo no mundo”. Então, há uma simultaneidade de adoração e missão: ”Atos cúlticos tomam lugar in via – eles são centrifugamente concebidos em completa unidade com a própria missão.”

Mas em 1958, Albert-Marie Denis tinha publicado o artigo ”A Função Apostólica e a Nova Liturgia no Espírito”, que é provavelmente o primeiro estudo a tratar substancialmente da proclamação do evangelho como a ”nova liturgia”. Denis apresenta um competente estudo exegético das passagens no Novo Testamento que alimentam a concepção de que a obra apostólica é a nova adoração. É a primeira publicação expressiva sobre o uso missiológico de termos cúlticos do Velho Testamento no Novo Testamento. Sua conclusão geral é que evangelização é adoração.

Em 1992, David Peterson publicou um estudo magistral sobre a teologia bíblica da adoração: Engajando com Deus: Uma Teologia Bíblica da Adoração, no qual ele discute o uso termos cúlticos de Paulo para se referir ao seu ministério apostólico, em uma seção chamada ”Ministério do evangelho como uma expressão específica da adoração cristã”. Diz ele que a proclamação do evangelho por Paulo ”era um ato religioso comparável com o louvor oferecido em conjunto com o ritual sacrificial do tabernáculo ou templo”. A conclusão de Peterson é que o evangelismo e o fortalecimento dos crentes emergem ”como uma prioridade para aqueles preocupados em oferecer a Deus ‘adoração aceitável’”. De acordo, ele diz na conclusão geral de sua investigação: “Enquanto é verdade que a terminologia da adoração pode ser aplicada a toda esfera da vida, a pregação missionária, o estabelecimento de igrejas na verdade do evangelho e o apoio para tal ministério são vistos expressões específicas e particulares da adoração no Novo Testamento.”

Adoração coletiva de cristãos indiferentes à obra missionária agrada a Deus pela metade, se realmente, em qualquer medida. Não existe meia obediência.

A adoração do Novo Testamento abrange (a) a adoração da igreja reunida, que é o centro – somente o centro, mas também não menos que o centro – da inteira adoração que a igreja deve a Deus, e (b) a adoração da igreja no testemunho de Cristo ao mundo, que é o contexto tanto dependente daquele centro, como necessário a ele. ”Sem a adoração, a missão seria impotente; sem a missão, a adoração seria [é!] um embuste” (Michael Perry).
Portanto, sem envolvimento regular e expressivo na obra do evangelho, a adoração de uma igreja, não importa o quanto ela cante e ore em seus encontros, será um coração desencarnado, o centro de um vazio, um ”falso centro” (John Piet). Ou, como Immanuel Kant diria, ”hipocrisia devocional” (devotia spuria), ”pseudo-serviço” (cultus spurius) a Deus, que é ”a persuasão de que alguém pode ser servido por ações que, de fato, frustram os verdadeiros fins dele que está sendo servido”.

Nós temos uma grande tarefa hoje: restabelecer o relacionamento, perdido por séculos, entre a adoração da igreja reunida e a adoração da igreja-em-missão, na ”diáspora” da vida cotidiana.

A adoração da igreja na dispersão pela vida secular é a liturgia da estrada, do movimento em direção às pessoas; é a liturgia do testemunho.

Missão como adoração precisa entrar na agenda das igrejas. É necessário um cuidadoso e consistente trabalho de instrução, para que fique bem entendido que dar testemunho de Cristo ao mundo é a ”outra metade da adoração”; é a ”liturgia após a liturgia”, a liturgia do testemunho, evangelização. A liturgia ”continua com a diakonia, missão apostólica, visível e público testemunho cristão” (Ion Bria).

O pastor da igreja precisa criar momentum (”massa em movimento”), que, neste caso, é lançar estrategicamente a cultura de uma igreja missional, baseada no sacerdócio missionário de todos os crentes.

Em nome da tendência comum de tomar o centro de alguma coisa pela própria coisa, é absolutamente necessário afirmar proverbialmente que o coração não é o corpo. Tomar a adoração da igreja reunida como o pars pro toto da adoração – a parte pelo todo – é uma impossibilidade teológica. Se o culto da igreja reunida é a parte central e constitutiva de toda a adoração, a parte restante é a santidade na vida e o testemunho de Cristo no mundo. Ambos devem ser respeitados, para que a nossa adoração não seja simplesmente incompleta e “meio agradável” a Deus.